Prezados Amigos
Segue, para o conhecimento de todos, documento enviado pela OPIMP ao MPF referente ao posicionamento quanto a questão dos parentes Suruaha
OPIMP
ORGANIZAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO MÉDIO PURÚS
RUA: JOÃO BOSCO DE LIMA Nº1248
FONEFAX: 097 331 – 1467
CEP: 69830-000
Ofício OPIMP 031/06
Ao Ilmo.Sr. André Lopes Lasmar
Procurador da República do Estado do Amazonas
Lábrea, 18 de maio de 2006
Prezado Sr.,
Ao cumprimenta-lo cordialmente, nós que estamos a frente da OPIMP, vimos por meio desta nos manifestar em nome das lideranças das aldeias indígenas da região do médio rio Purus, estado do Amazonas, sobre a situação dos parentes Suruaha do igarapé riozinho, em resposta à proposta de Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta enviado por vossa senhoria no dia 18 de abril de 2006 através do ofício de Nº 011/2006/BAB/ALL/PR/AM/Ministério Público Federal / Procuradoria da República no Estado do Amazonas, documento recebido por nós no dia 05/05/2006.
Gostaríamos de contar inicialmente, com a vossa compreensão quanto a impossibilidade de responder a este dentro do prazo solicitado, pois a OPIMP enfrenta hoje uma agenda diária de muitos problemas em relação a diversos projetos de interesse das comunidades, como a educação indígena, que infelizmente vem sendo conduzida de maneira insatisfatória pelas prefeituras dos municípios de Lábrea e Tapauá, e principalmente quanto à saúde, como deve ser do conhecimento de vossa senhoria, já que o desfecho do convênio entre OPIMP e FUNASA passa ainda por diversos problemas de ordem burocrática o que esgota de vez a paciência de nossos credores e funcionários para prejuízo irreparável da Organização Indígena.
Estar a par da condução das ações de saúde para o povo Suruaha é muito bom para a OPIMP muito embora seja importante o MPF saber que hoje a OPIMP não tem uma comunicação direta, um dialogo satisfatório com lideranças daquele povo. Nesse sentido é que devemos alertar aos senhores como a todo órgão governamental que vá atuar junto a eles que SAIBAM RESPEITAR A VOZ DAS LIDERANÇAS, uma vez que sabemos que hoje os Suruaha respeitam muito a OPIMP e a OPIMP não se acha no direito de falar em nome dos Suruaha, pelo menos sem antes ouvi-los, através da voz de seus chefes.
Quanto à atuação das entidades de apoio, a OPIMP vê com preocupação a retirada da JOCUM e CIMI, uma vez que sabemos claramente das limitações estruturais da FUNAI, uma entidade hoje totalmente sucateada, e que está muito aquém do que os índios desejam como representação governamental para defender seus direitos. Sabemos também dos problemas burocráticos da FUNASA, como de sua incapacidade de lidar com a especificidade cultural do índio, como o vem demonstrando claramente através da atuação da atual Chefia do Distrito Especial de Saúde Indígena do Médio Purus com relação não só aos Suruaha, mas também aos Paumari, Apurinã, Jamamadi, Deni, Jarawara, Banawá-Yafi e Mamoria com os quais lidam cotidianamente nesse distrito especial, se mostrando todavia insensíveis quanto a questão da língua e jeito próprio de cada povo. O melhor exemplo dessa insensibilidade foi o tratamento dado ao parente Suruaha, Bá-u Suruaha, quando o pessoal do DSEI queria deixa-lo internado na CASAI de Lábrea, junto a parentes com tuberculose e gripe, sabendo que o Suruaha é frágil a esse tipo de doenças. Podemos dizer ainda que se dependesse da enfermeira da FUNASA esse parente nem teria vindo se tratar pois o mesmo estava com Leishimaniose mas foi dito que ele não tinha nada, ele só foi trazido após os parentes na aldeia cortarem bastante sua ferida com terçado para tentar tirar a doença, aí perceberam a gravidade do caso. Esse exemplo já é suficiente para pautar a atuação da FUNASA junto ao índio, entidade que no caso contrário da FUNAI é muito bem equipada e estruturada mas que conta com profissionais despreparados ou mesmo desinteressados sobre a cultura do índio, assim mesmo não se preocupando em aprender, em escutar o que os índios tem para dizer.
Nós da OPIMP reconhecemos que os missionários da JOCUM e CIMI durante esses anos todos prestaram um grande apoio aos Suruaha; que o CIMI contactou-os, até mesmo antes do Estado Brasileiro, e fizeram um trabalho importante de preservação da integridade deles perante aos brancos que avançavam sobre o seu território para extrair sorva e borracha, matando os índios que ali moravam. Essas entidades mantiveram-se durante mais de vinte anos com uma atuação direta e cotidiana junto aos parentes e com a saída delas o temor da OPIMP é de que o governo não consiga cobrir e lacuna que irá ficar. Sabemos que as entidades missionárias contavam com uma infra-estrutura muito boa como hidro-avião, casa, além do fornecimento de medicamento e providencia sempre que necessário na atenção a saúde nos casos urgentes.
Quanto ao conteúdo da CLAUSULA QUINTA do proposto TAC a OPIMP gostaria que fosse acrescentado: “responsabilizando-se a FUNASA” ou “responsabilizando-se a FUNAI” de modo que fique bem claro quem arcará com as despesas dessa pessoa da OPIMP evitando futuros transtornos. Além disso é necessário que se estipule um valor para a ajuda de custo para a família desta pessoa que irá viajar , como é de praxe nas viagens da OPIMP.
Quanto ao citado na CLAUSULA QUARTA – Parágrafo Único, a OPIMP concorda em participar de todas as reuniões envolvendo a questão dos parentes Suruaha, apesar de não termos ainda o conhecimento de instituições de referencia para oferecer esses cursos de preparação. Gostaríamos de ressaltar ainda sobre esse item, que a FUNASA já mandou recentemente um técnico em enfermagem não capacitado (apesar de alguma experiência em área indígena junto a outras etnias), o qual entrou na área sem nenhum intérprete acompanhando-o e que a OPIMP não foi consultada - O DSEI MP hoje não conta com um plano de capacitação antropológica, ou com um antropólogo junto ao seu corpo de funcionários, muito embora durante as conferencias Locais, Distrital e Nacional de saúde indígena tenha-se colocado esse item na pauta de deliberações.
Quanto ao item III da CLAUSULA TERCEIRA que trata da situação das crianças Suruaha, voltamos a ressaltar que os primeiros a ser escutados devem ser os líderes Suruaha, os quais respeitamos e em nome dos quais não podemos falar, pelo menos não sem o seu consentimento. Desse modo o procedimento adequado deve ser discutido primeiramente junto às famílias dessas crianças .
Dessa forma é que nós da OPIMP manifestamos o nosso posicionamento, aguardando contudo uma reunião com todos os atores envolvidos, FUNAI, FUNASA, Missionário Evangélicos, Suruaha, CIMI e MPF antes de assinarmos um Termo de Ajustamento de Conduta.
Com os mais sinceros votos de estima e consideração,
Atenciosamente,
Moacir Apurinã
Coordenador Geral da OPIMPHeraldo Rocha
Vice-Coordenador da OPIMPSebastião Matias de Souza
Secretário Executivo da OPIMPEdílson Pinheiro
Tesoureiro da OPIMP